Por: Mike Malakkias Em: setembro 18, 2016 Categoria: Artigos, Comunicação, Marketing Comentários: 0

SSugestivo o título do artigo?

Creio que não. Principalmente se você não é um profundo estudioso da história do norte do Brasil ou exímio pesquisador do marketing internacional. Independe de quais dos casos você se enquadre, ou em nenhum deles, este artigo trará aspectos interessantes se você, assim como eu, quer se debruçar nos escaninhos históricos do marketing para compreender melhor o marketing internacional, ainda em sua versão 1.0, e seus reflexos nos paradigmas atuais. Estamos na era do marketing 3.0, quem sabe encaminhando para uma versão 4.0 e, como todo conhecimento acumulado pela humanidade, visitar o passado para ver o que deu errado se faz necessário para que não repitamos erros no presente e futuro.

 

O LADRÃO NO FIM DO MUNDO

Henry WickhamBrasil, fins do século XIX, o inglês Henry Wickham, pai da biopirataria, desembarca no coração da Amazônia com o pretexto de buscar penas exuberantes para decorar chapéu das distintas senhoras da nobreza inglesa da era vitoriana. Em sua mente outros planos motivavam a viagem, uma missão: furtar sementes de seringueira, arvore de onde pode ser extraído a matéria prima da borracha. Objetivavam planta-las no Jardim Botânico Real da Inglaterra. Mais de 70 mil sementes foram levadas na surdina e a história ficou pior quando 2,7 mil sementes germinaram na Inglaterra e foram enviadas às colônias inglesas na Malásia, Cingapura e Ceilão. Nesta mesma época, do outro lado do mundo, nos Estados Unidos da America, Henry Ford iniciava seus primeiros passos no que viria ser a primeira linha de produção automotiva.

Voltando ao pós furto das seringueiras brasileiras, a produção da borracha nas colônias inglesas era mais organizada, afinal as seringueiras foram plantadas enfileiradas, uma monocultura, bem diferente do Brasil, onde as seringueiras estão espalhadas pela floresta. Nas colônias, localizadas na Ásia, a plantação deu certo pois lá não havia – e não há até hoje – uma praga de fungos ou insetos que mata as seringueiras. Devido esse furto, o Brasil perdeu importância na produção da borracha e a Inglaterra passou a deter o monopólio da matéria prima, controlando assim seu preço e oferta na primeira metade do século XX.

 

O IMPERIOSO HENRY FORD

henry_ford_1919Voltemos agora para a América do Norte: Já com seus 40 anos de idade, Henry Ford e um grupo de investidores fundam a Ford Motor Company em 1903, colocando em linha de montagem o modelo Ford T, carro que rapidamente virou febre entre os americanos. Com o passar do tempo e, vendo suas vendas caírem, Ford lança um novo modelo de automóvel, o Ford A. Em meados de 1926 ele inicia sua produção, vendendo mais de 4 milhões de unidades. Aço e borracha eram o que mais necessitavam para a fabricação do automóvel.

94667-004-347f5b70Nos negócios internacionais, Ford defendia a independência econômica para os Estados Unidos. Sua fábrica em River Rouge tornou-se o maior complexo industrial do mundo a aquela época, sendo até mesmo capaz de produzir o seu próprio aço. Ford tinha por objetivo produzir um veículo a partir do zero, sem dependência de comércio externo. Entretanto esbarrava no monopólio da borracha inglesa. Uma das matérias primas mais necessárias para seu negócio ficava cada vez mais cara.

Como todo grande visionário americano daquela época, Ford acreditava ser capaz de tudo, inclusive de derrubar o monopólio inglês. Foi quando resolve implementar um plano ousado na terra mater das seringueiras, a Amazônia. Escolheu um recanto do Pará, Aveiro, uma cidade as margens do rio Tapajós onde implantou seu projeto agroindustrial.

 

YANKEES TENTAM DOMAR A SELVA

6a00d83467174c53ef019aff399d5a970bO projeto “Fordlândia“, que emprestou o nome ao atual distrito de Aveiro, foi uma vasta área de terras adquiridas pelo empresário norte-americano, através de sua empresa Companhia Ford Industrial do Brasil, por concessão do estado do Pará, por iniciativa do governador Dionísio Bentes e aprovada pela Assembleia Legislativa em 30 de setembro de 1927. O empresário tinha a intenção de usar Fordlândia para abastecer sua empresa de látex, essencial para confecção dos pneus de seus automóveis.

A terra local era infértil e pedregosa e nenhum dos gerentes de Ford tinham experiência em agricultura equatorial, acarretando no plantio incorreto das seringueiras, copiando o modelo inglês, plantando-as muito próximas umas das outras, o oposto das arvores endêmicas, muito espaçadas na selva, assim, as seringueiras viraram presas fáceis para pragas agrícolas, principalmente micro-organismos do gênero Microcyclus que dizimavam as plantações. Este erro monumental só fora percebido mais tarde…

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UMA INDUSTRIA NA FLORESTA DE TUPÃ

fordlandia-6-8Em pouco tempo, dois enormes transatlânticos chegavam dos Estados Unidos da América trazendo uma indústria inteira para ser instalada em Fordlãndia, transformando o contexto local antes esquecido pelos próprios brasileiros. Maquinários modernos, usina de energia, casas no padrão americano, hospitais de primeira linha, pavimentação, tudo veio nestes transatlânticos. Em pouco tempo inúmeros trabalhadores achegavam-se de vários locais do Brasil em busca de uma vida melhor. Registros históricos dão conta de que as condições de trabalho e saúde eram muito superiores aos oferecidos em outros lugares do nosso país. O que atraia mais e mais trabalhadores.

 

TUPÃ VINGA O DESEQUILÍBRIO YANKEE

Em seguida uma sucessão de erros começou a inviabilizar o projeto monumental. As arvores indefesas por terem sido plantadas como monocultura foram dizimadas pelas pragas, o que resultou em nova tentativa de plantio em uma localidade próxima, Belterra. Ainda assim os problemas continuaram, pragas novamente ameaçavam as plantações, não parando por aí: a filosofia das industrias Ford, imposta em terras equatoriais, agravou a situação.

 

IMPOSSÍVEL DOMAR A SELVA, NOSSO POVO TÃO POUCO.

fordlandia-7Outro grave entrave resultou em revoltas por parte dos trabalhadores. Em um país que, a aquela época, já se mostrava plural, Ford obrigava os trabalhares seguir o padrão de todas as suas fabricas ao redor do mundo, fornecendo uma alimentação típica norte-americana, como hambúrgueres, instalando-os em habitações também ao estilo norte-americano, obrigando-os a usar crachás e serem comandados num estilo a que não estavam habituados, o que causava conflitos e baixa produtividade. Em 1930, os trabalhadores locais se revoltaram contra gerentes truculentos, que tiveram que se esconder na selva até o exército brasileiro intervir e restabelecer a ordem. Mais 15 anos passaram na poeira do tempo após este episódio.

Mesmo com o desastre estratégico as operações em Fordlândia e Belterra perduraram até 1945 quando então falace Henry Ford, assumindo em seu lugar o neto, que decide por encerar o projeto.

2009-293792137-2009083153600-jpg_20090831Através do Decreto 8.440 de 24 de dezembro de 1945, o Governo Federal brasileiro sob o comando do presidente interino José Linhares definiu as condições de compra do acervo da companhia. Da noite para o dia a Companhia Ford Industrial do Brasil bate em retirada deixando para trás tudo que havia construído. Nada fora levado de volta para os Estados Unidos, nem os talheres das casas.

 

O “LEGADO” QUE FICOU O TEMPO TRANSFORMOU

Após a desativação do projeto, os antigos trabalhadores da Ford preferiram ficar estabelecidos na localidade, visto que era dotada de grande infraestrutura. Este fato atraiu também moradores do entorno, que viram a oportunidade de fixar residência na localidade após o abandono de muitas edificações em boas condições. Entretanto, sem a Ford, como manter o lugar?

kkjlhA economia de Fordlândia passou a depender, desde então, da agropecuária, do extrativismo e da pesca. O boom agropecuário ocorreu com maior intensidade com a abertura, na década de 1970, da rodovia Cuiabá-Santarém, que trouxe para a região uma nova fronteira agrícola. A fronteira atraiu para o entorno de Fordlândia, na década de 2000, as grandes áreas cultivadas de soja, transformando profundamente a economia local, mais uma vez.

img_5073_cidade-fantasmaEmbora seja caracterizada na imprensa como “cidade fantasma”, o distrito possui moradores fixos e permanentes. Em 2010 o IBGE contabilizou cerca de 1200 residentes somente na vila, números que somados ao território total do distrito chega a cerca de 2000 moradores em Fordlândia.

 

O QUE A HISTÓRIA ENSINOU?

Ao se pensar em marketing internacional, as lições aprendidas com a epopeia Fordlândia nos sucinta inúmeras reflexões. Como pesquisador do assunto, reflito sobre os erros, mas como incentivador dos estudantes da área, quero deixar perguntas para fazer você, meu leitor, refletir também. Use os comentários e deixe sua opinião.

  • Hoje o mundo é globalizado, assim sendo, é possível implantar um único sistema de trabalho em todo o mundo sem levar em conta os aspectos locais?
  • Henry Ford dizia que não contratava pessoas e sim operários. Esta forma de gerência funcionaria em dias atuais?
  • O marketing atual, principalmente o digital, trabalha muito a criação de personas para que o conteúdo converse adequadamente com cada público. Você acha que poderia ser diferente?
  • E depois do fracasso de Fordlândia, tendo em mente o gerenciamento de crise na área das relações públicas, quais atitudes você tomaria para cuidar da imagem da empresa?

Muito o que pensar, não é mesmo? Fico por aqui e em breve trarei novos casos para estudarmos juntos. Caso conheça histórias semelhantes, compartilhe comigo, deixe uma mensagem nos comentários.

Até a próxima.

Assinam este artigo:
Mike Malakkias
Ronan Capruni
Marina Sanchês


BIBLIOGRAFIA

GRANDIN, Greglançou. Fordlandia – A ascensão e a queda da cidade perdida na selva de Henry Ford. Editora Rocco

JACKSON, Joe. O ladrão no fim do mundo. Editora Objetiva.

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